Patuléia Virtual

janeiro 21, 2010 por Raí Faustino

Geraldo estava de folga naquela quinta. Na verdade, estava em telecomutação – que na teoria, é trazer trabalho para fazer em casa; na prática, é uma desculpa para ficar sem fazer nada, deixando as aparências mostrarem que ele está sendo produtivo. O laptop no qual ele deveria estar atualizando as planilhas arcaicas do setor de T.I. da sua empresa estava em modo de espera, e Geraldo estava em frente à TV com os dedos da mão direita enfiados na calça e a mão esquerda alternando entre o domínio de um sanduíche de queijo e lombinho e um controle remoto, consequentemente engordurado picas.

Eis que então surge uma voz:

- Painho, posso usar o laptop? – era o filho adolescente do Geraldo, o Luiz.
- Não mexe no equissel.
- Viu!

E o Luizinho reativou o laptop, rapidamente acessando o MSN Messenger pra confabular com os amiguinhos. Sem demora surgem novas janelas piscando em laranja – sinais de que a patuléia virtual clama por suas palavras. Era um cara popular.

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Um décimo

janeiro 9, 2010 por Raí Faustino

Antes da crônica, gostaria de me justificar pelo tempo sem postagens. É tempo de férias, e aliado a isso eu tive problemas com o meu computador e fiquei um tempo sem poder acessar a internet. Mas agora estou de volta com alguns textos pra postar e pretendo voltar ao ritmo semanal que eu tinha antes.

Boa leitura!

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Um médico está a minutos do horário de saída do hospital, sedento pela liberdade da sexta-feira noturna. Porém, ele tem de receber um último paciente. O homem reclama de dores insuportáveis nos olhos, que estão visivelmente vermelhos. O médico pergunta:

- O que houve com seus olhos?

Ao que o paciente responde:

- Eu não consigo tirar as minhas lentes!

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Sobre o álcool

dezembro 11, 2009 por Raí Faustino

Me preocupo com a juventude desregrada do século XXI. O mundo do álcool e das drogas dragou a nossa garotada, envolvendo-os em um turbilhão vicioso de vodka, vinho, leite condensado, tequila, limão e uma pitada de sal. Por isso, estou escrevendo uma peça para ilustrar as intempéries enfrentadas por quem se entrega à orgia.

Acompanhem comigo.

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Alô você…

dezembro 6, 2009 por Raí Faustino

- …vovô que conta sempre as mesmas histórias de pescador. Todos já sabem que você pescou um peixe de 150cm, lá na lagoa Rodrigo de Freitas, no tempo que ela ainda era limpa. Seja mais criativo na mentira!

- …adolescente que começou a ouvir Slipknot há um mês e já se acha a encarnação de Mephisto. Deixe de lado os cânticos de louvor a Satanás e vá decorar a tabuada, meu querido.

- …crente fervoroso que tenta convencer Deus e o mundo de que a sua religião é a correta. Continue congregando em paz com seus irmãos e preserve a paz de espírito alheia. É preciso respeitar pra ser respeitado!

- …metaleirinho que diz não gostar de nada da cultura brasileira e sai por aí com o velho discurso: “Qual a graça de um esporte com 22 homens suados correndo atrás de uma bola?” – Ninguém te ama.

- …flanelinha fardado que cobra o dinheiro logo quando a gente vai estacionar o carro. A gente sabe que você não olha carro porra nenhuma. Portanto, não reclame se a gente não pagar, e dê graças a Deus pelos otários que te sustentam.

- …curso que fornece workshop PAGO em véspera de natal e ano-novo: Eu não compareceria nem de graça. Beijo no cérebro danificado de vocês.

- …torcedor de time que tá ganhando todas e fica tirando sarro dos amigos. Só brinque se aguentar a brincadeira, um dia o seu Dream Team vai tomar ferro e todos vão procurar vingança.

-…e por último, leitor que se identificou com algum dos itens acima: eu te amo do jeito que você é (tirando você, metaleirinho), portanto não deixe de visitar o blog. :)

(post inspirado pelas maluquices do @HugoGloss)

Os Dez Mandamentos dos Cronistas

dezembro 1, 2009 por Raí Faustino

1 – Não terás outros deuses diante de Luís Veríssimo.

2 – Não farás para ti imagem em forma de jornal, revista, livro, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, etc. etc.

3 – Não tomarás o nome de Luís Veríssimo em vão.

4 – Lembra-te do dia de ócio, para o santificar (fazendo o maior número de crônicas possível).

5 – Honra o teu professor, para que te ensine todos os caminhos gramaticais possíveis.

6 – Não matarás um acontecimento real e engraçado com piadas inventadas e insossas.

7 – Não adulterarás o seu estilo de escrita para se promover.

8 – Não roubarás a crônica pronta do teu próximo.

9 – Não dirás falso testemunho contra o político próximo.

10 – Não cobiçarás a crônica do teu próximo, não cobiçarás a do teu próximo, nem a formatação, nem o notebook, nem o tempo livre, nem coisa alguma do teu próximo.

Cuscuz

novembro 21, 2009 por Raí Faustino

-        Adoro cuscuz.

-        Oi?

-        Cuscuz com Nescau. Café da manhã no grau.

-        Olha, a rima de manhã cedo.

-        Ô, foi mal.

-        Para de rimar, cacete!

-        Tá, parei! Mas ó, que cuscuz com Nescau é o café da manhã perfeito, isso é.

-        Tô sabendo…

-        Serinho! Quer melhor maneira de começar o dia? O cuscuz amarelinho com manteiga derretendo por cima fazendo a base, mais o Nescau quente cheio de bolinha de leite Ninho, tá ligado? Satisfaz, e te deixa no grau pra qualquer coisa.

-        Mas encher a barriga de manhã cedo assim é bom pra saúde? E com quem você pegou essa mania de falar “no grau”?

-        Claro que é bom, é essencial! O café da manhã é a refeição mais importante do dia.

-        Lá vem você com essas concepções de americano.

-        Cumé?

-        Esse papo de café da manhã aí.

-        Nem é coisa de americano, todo mundo sabe disso.

-        Que nada, José! O povo começou nessa idéia de tanto ver filme gringo. Você mermo, aposto que começou essa maluquice depois de ver aquele filme antigão com o Stallone, que ele é policial e mãe dele fica enchendo o saco…

-        “Pare!, Senão Mamãe Atira”?

-        Esse aí. Lembra daquela cena, quando ela tá na casa dele e prepara o café? Desde a infância a mãe do cara empurra goela abaixo a refeição mais gordurosa possível logo de manhã, com a desculpa que é pra sustentar ele pro resto do dia. Isso é caô, inserido na cultura americana pra acostumar todo mundo a comer pra cacete, e engordar a população!

-        Mas eu tô falando de cuscuz.

-        Não interessa. Não é o que você come, e sim o quanto. O mundo caiu nessa onda de comilança e tá aí, esse exército da obesidade, sofrendo de doença cardíaca…

-        Ah é, né? E o que você acha que presta pra tomar café, sabido?

-        Salada de frutas, biscoito creme cráquer, saqualé? No máximo um pãozinho. Pra beber pode até ser o teu Nescau psicopata, mas eu prefiro um suco.

-        Vai se fuder, Hamilton. VAI SE FUDER. Por que então que você comeu anteontem no café três hamburgue e um copão de Coca-Cola?!

-        Foi a sobra da festa da Carol, porra.

-        Não importa! Você é outro manipulado pela influência dos americanos, outro soldado do exército da obesidade.

-        A verdade dói.

-        Quer dizer que você me esculhambou por comer cuscuz com Nescau e admite que pode comer bem pior do que eu?

-        Aham.

-        Assim, na boa?

-        É.

-        Po… Tá bom.

-        Fome da miséria… Bora fritar um ovo?

-        Tem bacon na geladeira ainda?

-        Tem. No grau.

-        Então bora.

E não discutiram mais. Isso, até o problemático do Hamilton notar a falta da frigideira teflon na dispensa e reclamar de como tudo que é frito com manteiga fica menos saudável. José perdeu a paciência, resmungou, xingou e foi na venda, pedir um pastel fiado.

Hamilton riu e foi fritar o bacon com ovo. Com muita manteiga.

Chá de Geysi Arruda

novembro 17, 2009 por Raí Faustino

É, eu tentei ficar calado pra não dar mais ibope, mas depois de ler a reportagem da Veja sobre o assunto, resolvi quebrar o meu silêncio e me pronunciar sobre.

Para quem faz parte da minoria que não sabe do que se trata o “caso Uniban”, vamos à introdução ao contexto (alguns destes dados foram retirados da reportagem que li). Na noite do dia 22 de Outubro de 2009, a estudante universitária Geysi Arruda compareceu ao campus da Uniban (Universidade Bandeirante) trajando um microvestido rosa. Até aí não há nada sensacional. Eu próprio já testemunhei diversos casos de mulheres vestindo trajes inadequados para um ambiente acadêmico, e nenhum deles se tornou notícia nacional.

A notícia da semana começou com os triviais gritos de “gostosa!” ecoando pelos corredores da instituição. As colegas dela colaram no vidro da sala em que ela estava um cartaz com os dizeres “Fotos da Loirão: R$10,00”. O quadro de brincadeira informal se transformou em alvoroço quando alguns primatas (chamar de estudantes seria bondade demais) começaram a perseguir Geysi, chamando-a por nomes de baixo calão, causando constrangimento e forçando ela a se refugiar dentro da sala de aula, que rapidamente estava rodeada por uma horda de animais, que esmurravam porta e janelas, bradavam celulares tirando fotos e gravando vídeos, e ainda gritando palavrões para desqualificá-la. O que poderia ser um evento isolado e rapidamente controlado pela intervenção de alguma(s) alma(s) de bom senso, se transformou em um evento que parou a universidade, que tinha todos os seus alunos concentrados no saguão principal. Foi necessária a intervenção da polícia – sim, da POLÍCIA MILITAR – para retirar Geysi do prédio, a essa altura devidamente coberta por um roupão de professor.

Os vídeos gravados pelos celulares apareceram pela internet alguns dias depois, e o bafafá inicial da notícia se deu pela rede social Twitter. A velocidade da informação virtual permitiu que várias pessoas dessem os seus pitacos informais sobre a situação desagradável que aconteceu na Uniban. Como em toda boa polêmica, o público se dividia quase que igualmente. Uns apoiavam Geysi, condenando a multidão de trogloditas; enquanto outros apoiaram a intolerância acontecida, chegando a dizer que ela havia merecido (!) o tratamento. Alguns preferiam fazer piadas, como por exemplo a que compara a Uniban ao Taliban, que partilham tanto a última sílaba quanto os métodos de seleção de vestuário das mulheres.

Mais alguns dias após o assunto já ter esfriado na internet, a televisão e a mídia impressa descobriram o potencial de Geysi, ou melhor, do seu microvestido rosa. O público em massa descobriu o que havia acontecido naquela universidade, e o assunto rapidamente voltou à tona. Enfrentando a pressão da massa, o reitor Heitor Pinto Filho resolveu submeter Geysi a uma nova humilhação: expulsou-a da faculdade, ao passo que seis dos baderneiros boca-suja levaram apenas suspensões.

Foi aí que a jiripoca piou. As discussões se acaloraram, chegando ao ponto de alunos da UnB tirarem as roupas (só tavam esperando a oportunidade certa, né?…) em um protesto em apoio à aluna.

Bem, introdução feita, vamos ao que eu realmente quero dizer. A confusão se encerrou, os trogloditas voltaram a estudar, o reitor voltou atrás na decisão da expulsão, e qual o resultado final? Geysi está na boca do povo. Geysi está bem para carvalho. Para estudante de uma universidade particular com preços populares (a mensalidade flutua pouco acima dos 400 reais), uma exposição dessas veio muito a calhar.

“Raí, seu insensível machista”, as leitoras femininas gritam. Calma, moçoilas. Acompanhem o meu raciocínio. Eu não quero dizer que Geysi mereceu o tratamento que recebeu dos colegas de graduação. Eu só acho errado apontá-la como vítima da sociedade. Uma mulher como ela não teve o caráter posto em xeque, foi ela própria que o fez ao usar um traje completamente fora dos padrões! E tal qual a baiana professorinha infantil que ganhou fama após dançar seminua em cima de um palco de uma casa de shows de Salvador, Geysi agora poderá colher os frutos da fama. Antes do reitor da Uniban anular a expulsão, surgiram dois convites de outras instituições para que Geysi pudesse estudar de graça. É isso aí, bolsa integral. Não por esforço, dedicação e estudo, mas por um vestidinho rosa que fica apertado até em botijão de gás.

Mas não são os convites acadêmicos os mais tentadores, ah não. Geysi Arruda já apareceu em diversas reportagens televisivas posando de vítima. AH, importante lembrar: trajando sempre o vestido que a tornou famosa. Ela já estuda a possibilidade de – ora, como não! – fazer comercial de uma marca de lingerie e posar nua.

Sabe o mais interessante? Na tarde de segunda-feira, dia 16/11/2009 (véspera da publicação desse texto, quase um mês após o desfile de barbaridades na Uniban), a NASA efetuou da base de Cabo Canaveral, nos EUA, o lançamento do ônibus espacial Atlantis. A missão é levar peças de reposição para a estação espacial, com uma previsão de vôo de 11 dias. Enquanto isso, os holofotes da mídia brasileira estão voltados para uma universidade recheada de elementos irracionais, e uma celebridade instantânea de cabelos oxigenados e pouca roupa.

Na boa, esperto mesmo era o Gabriel, O Pensador, que há muitos anos atrás batizou seu disco com um nome perfeito para descrever a mentalidade da massa brasileira: “Nádegas a declarar”