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Emepetrês

outubro 31, 2009

Estamos sitiados. O mundo contemporâneo se deixou dominar pelos barramentos de cobre e os componentes de silício. Obviamente, isso veio a acontecer simplesmente por ninguém perceber que tecnologia é uma chaga. Uma gangrena no tecido da sociedade moderna. Pois, assim como toda gangrena que se preze, a tecnologia não tende a se retrair, e sim a se expandir sem fronteiras onde quer que se instale, conquistando novos territórios, e inevitavelmente incapacitando o intelecto das gerações vindouras, tal qual a doença mata o corpo aos poucos.

Há decadas atrás, as pessoas tinham uma vida livre de redes sociais na internet, que mais servem pra terminar namoros e instaurar inconfiança do que qualquer outra coisa. Os casais criam perfis conjuntos, a namorada temendo o que a menina com foto de biquíni pode conversar em segredo com o namorado, e ele sem temer absolutamente nada. Preferia o perfil separado mesmo, por razões óbvias inerentes ao caráter masculino, mas isso é assunto pra outra oportunidade.

A cozinha da dona de casa sempre foi composta de fogão, panelas, compaixão e amor (leia Sazon). Pra que mais? Ninguém sabe pra que. Mas isso não impede o surgimento de frigideiras high-tech. Tal qual um microondas achatado e raivoso, a infeliz tem um display que informa a temperatura, pra quem quiser saber. Dica: não sou eu. Se os meus bacons foram fritos a 80, 90, 100 graus celsius, não importa!, a pergunta certa a fazer é se tem farinha ou queijo ralado pra colocar em cima.

Mas há avanços que eu admiro. Os aparelhos portáteis de reprodução de música digital (quê?) atuais, por exemplo, superam os seus antepassados, o walkman e o discman, em diversos aspectos. Porém, é uma pena estarem fadados ao mesmo destino cruel dos telefones celulares. Você não vai ter facilidades em encontrar um desses aparelhos simples, que façam uma função básica e vital a um preço justo. Na verdade, você não vai ter facilidade em encontrar um desses, ponto. Esses dias eu me vi sem um mp3 (ah, por que não disse antes?), que me distrai no dia-a-dia, nas tarefas repetitivas “lá-e-cá” como faculdade, academia, etc. Precisava de outro. Mas não queria um aparelho mp780², que não apenas reproduz músicas e videos, como também captura imagens em sequência, manda e recebe mensagens multimídia, tem som em viva-voz, mede taxa de glicose no sangue, prevê o tempo com base na leitura da umidade do local, lê impressões digitais e envia para o banco de dados do Pentágono, e, se no caso de alguém estar achando pouco, tem botõeszinhos em baixo relevo que são um amor. Não. Eu só queria um mp3 que tocasse música.

Engajei em uma conversação sobre o tema com a minha mãe e me surpreendi:

– Filho, o pessoal lá do trabalho disse que esses emepetrês estão saindo de linha. Você só encontra de segunda mão agora.

– Sério?

– Séríssimo.

– Ah tudo bem então… Vou ter que comprar de segunda mão.

Abre parênteses. Jamais expresse uma opinião contrária à da sua mãe com tamanha convicção. Você pode ter a idade que for, que em poucos segundos você será um idoso desmoralizado. Fecha parênteses.

– Segunda mão NÃO. A loja tá aí pra isso. Compra um desses emepequatro.

– Mãe, eu não gosto desses negócios.

– Como não gosta? Eu vi um que era tão bonitinho, uns botões fofos, tinha rosa choque, prata fosco e azul azul, daqueles bem azuis mesmo.

– Prefiro preto. Ah, falar nisso, acho que o João tava vendendo o dele, cobrava uns cinquenta e…

– Já falei que de segunda mão não, Raí! Compra um novo! Tem um monte de traquitanas do jeito que vocês jovenszinhos gostam.

– O problema é que eu não uso essas funções e tenho que pagar mais por elas.

– E daí? Paga e começa a usar.

Foi nesse ponto que eu me calei em derrota. A curva de crescimento da tecnologia se pôs de tal maneira que inverteu a relação mãe-filho vigente na minha residência: eu era o adulto que dispensava as futilidades de um aparelho novo em troca do essencial e barato, e a minha mãe era o jovem que se adapta rapidamente ao que o mercado high-tech dispõe. Tenho medo da permuta que pode ser feita entre eu e o meu pai. Se um dia eu acordar com a mania de dizer “por entendeu” ao fim de cada frase, eu mato o Bill Gates. Juro que mato.

Assalto

outubro 29, 2009

Foi num desses sábados implicantes, daqueles dias frios que ficam no chove-não-chove, eu estava voltando da casa do meu colega Duca. Duca tinha juntado a galera pra jogar pôquer, com fichas improvisadas de tampa de garrafa de refrigerante. As diferentes cores representavam grandezas distintas – cinco, dez, cinquenta, etc. Claro, era um valor simbólico (simbolizavam nossa falta de dinheiro). Isso não impedia as discussões acaloradas depois de a namorada do Duca confundir as tampas amarelas de Fanta com as tampas amarelas promocionais da Coca-Cola.

Após a noite gostosa com a turma, eu estava no caminho de volta, quase chegando em casa, e ali – na esquina do barzinho arrumadinho – aconteceu. Um indivíduo baixinho e troncundo vestindo um blusão de frio, chegou puxando um assunto aleatório que não me chamou a atenção. Me seguin por uns dez metros, continuou falando, e eu decidi por apertar o passo. Na iminência do desprezo completo, ele finalmente anunciou o assalto.

Foi aí que eu me impacientei com a audácia do fulano e avancei. Um cruzado na cara, uma joelhada no nariz, pum, ele no chão. Segui chutando o infeliz nas costelas, dando nomes feios, era até gostoso. Decidi que faria aquilo o resto da noite se preciso. Ele que chamasse a mãe se decidisse que já tinha tido o suficiente. Infelizmente, num intervalo de um chute para o outro eu resolvi tomar distância, tal qual um goleiro que se prepara pra cobrar um tiro de meta (nesse caso a bola eram as costas dele), e ele conseguiu se recompor e sair correndo. “E não aparece mais por aqui, seu sacana!”

Tudo isso, é lógico, em pensamento.

Uma piscada mais efusiva e eu estava de volta à realidade. O baixinho troncudo ainda está ali, talvez se perguntando porque eu passei os últimos 3 segundos com o olhar vazio. “Perdeu, playboy” – frase padrão. Mas que inferno, eu estava de bermuda floral, não tinha o direito de protestar. Ele devia ter achado que eu duvidei da sua capacidade como assaltante, pois naquele momento puxou o que na hora precia ser um facão de cortar cana – mais tarde em casa, eu me perguntei se aquilo não era um pedaço comprido de papelão, mas na hora a gente deixa essas indagações passarem batidas.

Me restava ceder o meu dinheirinho suado. Um mês inteirinho, ganhar um salário mínimo trabalhando como “escraviário” – mistura de escravo com estagiário, soa como redundância, eu sei, mas não se atenha a detalhes, leitor – e vem um safado desses levar a grana. Mas, enfim. Preparei uma pinça inofensiva com o meu polegar e indicador e peguei uma nota de 2 reais do meu bolso, e dei na mão dele. Ele pegou a nota e me retribuiu com um olhar de cachorro pidão que acaba de ganhar o osso, coisa de fração de segundo, se eu piscasse na hora errada, não teria visto. Andou comigo por mais vinte metros pela rua deserta, como querendo me escoltar com segurança até a porta de casa. Mais cordial, só com tapinha nas costas, “Valeu” e “Volte sempre”. E aí me abandonou.

Suspirei aliviado. Examinei a minha carteira e vi lá, intacta, a nota de 50 reais que o Fabinho tava me devendo há 4 meses, e milagre, me pagou justo naquele sábado irritante. Mas eu não estava tão satisfeito. Vingança, mas vingança mesmo, era ter os 52 reais inteirinhos em moedas de 5 centavos, só pra jogar no chão e me divertir vendo o baixinho troncudo catar o dinheiro aos poucos.

Mesmo assim, passei uns dois meses sem ir na casa do Duca.