Assalto

Foi num desses sábados implicantes, daqueles dias frios que ficam no chove-não-chove, eu estava voltando da casa do meu colega Duca. Duca tinha juntado a galera pra jogar pôquer, com fichas improvisadas de tampa de garrafa de refrigerante. As diferentes cores representavam grandezas distintas – cinco, dez, cinquenta, etc. Claro, era um valor simbólico (simbolizavam nossa falta de dinheiro). Isso não impedia as discussões acaloradas depois de a namorada do Duca confundir as tampas amarelas de Fanta com as tampas amarelas promocionais da Coca-Cola.

Após a noite gostosa com a turma, eu estava no caminho de volta, quase chegando em casa, e ali – na esquina do barzinho arrumadinho – aconteceu. Um indivíduo baixinho e troncundo vestindo um blusão de frio, chegou puxando um assunto aleatório que não me chamou a atenção. Me seguin por uns dez metros, continuou falando, e eu decidi por apertar o passo. Na iminência do desprezo completo, ele finalmente anunciou o assalto.

Foi aí que eu me impacientei com a audácia do fulano e avancei. Um cruzado na cara, uma joelhada no nariz, pum, ele no chão. Segui chutando o infeliz nas costelas, dando nomes feios, era até gostoso. Decidi que faria aquilo o resto da noite se preciso. Ele que chamasse a mãe se decidisse que já tinha tido o suficiente. Infelizmente, num intervalo de um chute para o outro eu resolvi tomar distância, tal qual um goleiro que se prepara pra cobrar um tiro de meta (nesse caso a bola eram as costas dele), e ele conseguiu se recompor e sair correndo. “E não aparece mais por aqui, seu sacana!”

Tudo isso, é lógico, em pensamento.

Uma piscada mais efusiva e eu estava de volta à realidade. O baixinho troncudo ainda está ali, talvez se perguntando porque eu passei os últimos 3 segundos com o olhar vazio. “Perdeu, playboy” – frase padrão. Mas que inferno, eu estava de bermuda floral, não tinha o direito de protestar. Ele devia ter achado que eu duvidei da sua capacidade como assaltante, pois naquele momento puxou o que na hora precia ser um facão de cortar cana – mais tarde em casa, eu me perguntei se aquilo não era um pedaço comprido de papelão, mas na hora a gente deixa essas indagações passarem batidas.

Me restava ceder o meu dinheirinho suado. Um mês inteirinho, ganhar um salário mínimo trabalhando como “escraviário” – mistura de escravo com estagiário, soa como redundância, eu sei, mas não se atenha a detalhes, leitor – e vem um safado desses levar a grana. Mas, enfim. Preparei uma pinça inofensiva com o meu polegar e indicador e peguei uma nota de 2 reais do meu bolso, e dei na mão dele. Ele pegou a nota e me retribuiu com um olhar de cachorro pidão que acaba de ganhar o osso, coisa de fração de segundo, se eu piscasse na hora errada, não teria visto. Andou comigo por mais vinte metros pela rua deserta, como querendo me escoltar com segurança até a porta de casa. Mais cordial, só com tapinha nas costas, “Valeu” e “Volte sempre”. E aí me abandonou.

Suspirei aliviado. Examinei a minha carteira e vi lá, intacta, a nota de 50 reais que o Fabinho tava me devendo há 4 meses, e milagre, me pagou justo naquele sábado irritante. Mas eu não estava tão satisfeito. Vingança, mas vingança mesmo, era ter os 52 reais inteirinhos em moedas de 5 centavos, só pra jogar no chão e me divertir vendo o baixinho troncudo catar o dinheiro aos poucos.

Mesmo assim, passei uns dois meses sem ir na casa do Duca.

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