Archive for novembro \21\UTC 2009

Cuscuz

novembro 21, 2009

–        Adoro cuscuz.

–        Oi?

–        Cuscuz com Nescau. Café da manhã no grau.

–        Olha, a rima de manhã cedo.

–        Ô, foi mal.

–        Para de rimar, cacete!

–        Tá, parei! Mas ó, que cuscuz com Nescau é o café da manhã perfeito, isso é.

–        Tô sabendo…

–        Serinho! Quer melhor maneira de começar o dia? O cuscuz amarelinho com manteiga derretendo por cima fazendo a base, mais o Nescau quente cheio de bolinha de leite Ninho, tá ligado? Satisfaz, e te deixa no grau pra qualquer coisa.

–        Mas encher a barriga de manhã cedo assim é bom pra saúde? E com quem você pegou essa mania de falar “no grau”?

–        Claro que é bom, é essencial! O café da manhã é a refeição mais importante do dia.

–        Lá vem você com essas concepções de americano.

–        Cumé?

–        Esse papo de café da manhã aí.

–        Nem é coisa de americano, todo mundo sabe disso.

–        Que nada, José! O povo começou nessa idéia de tanto ver filme gringo. Você mermo, aposto que começou essa maluquice depois de ver aquele filme antigão com o Stallone, que ele é policial e mãe dele fica enchendo o saco…

–        “Pare!, Senão Mamãe Atira”?

–        Esse aí. Lembra daquela cena, quando ela tá na casa dele e prepara o café? Desde a infância a mãe do cara empurra goela abaixo a refeição mais gordurosa possível logo de manhã, com a desculpa que é pra sustentar ele pro resto do dia. Isso é caô, inserido na cultura americana pra acostumar todo mundo a comer pra cacete, e engordar a população!

–        Mas eu tô falando de cuscuz.

–        Não interessa. Não é o que você come, e sim o quanto. O mundo caiu nessa onda de comilança e tá aí, esse exército da obesidade, sofrendo de doença cardíaca…

–        Ah é, né? E o que você acha que presta pra tomar café, sabido?

–        Salada de frutas, biscoito creme cráquer, saqualé? No máximo um pãozinho. Pra beber pode até ser o teu Nescau psicopata, mas eu prefiro um suco.

–        Vai se fuder, Hamilton. VAI SE FUDER. Por que então que você comeu anteontem no café três hamburgue e um copão de Coca-Cola?!

–        Foi a sobra da festa da Carol, porra.

–        Não importa! Você é outro manipulado pela influência dos americanos, outro soldado do exército da obesidade.

–        A verdade dói.

–        Quer dizer que você me esculhambou por comer cuscuz com Nescau e admite que pode comer bem pior do que eu?

–        Aham.

–        Assim, na boa?

–        É.

–        Po… Tá bom.

–        Fome da miséria… Bora fritar um ovo?

–        Tem bacon na geladeira ainda?

–        Tem. No grau.

–        Então bora.

E não discutiram mais. Isso, até o problemático do Hamilton notar a falta da frigideira teflon na dispensa e reclamar de como tudo que é frito com manteiga fica menos saudável. José perdeu a paciência, resmungou, xingou e foi na venda, pedir um pastel fiado.

Hamilton riu e foi fritar o bacon com ovo. Com muita manteiga.

Chá de Geysi Arruda

novembro 17, 2009

É, eu tentei ficar calado pra não dar mais ibope, mas depois de ler a reportagem da Veja sobre o assunto, resolvi quebrar o meu silêncio e me pronunciar sobre.

Para quem faz parte da minoria que não sabe do que se trata o “caso Uniban”, vamos à introdução ao contexto (alguns destes dados foram retirados da reportagem que li). Na noite do dia 22 de Outubro de 2009, a estudante universitária Geysi Arruda compareceu ao campus da Uniban (Universidade Bandeirante) trajando um microvestido rosa. Até aí não há nada sensacional. Eu próprio já testemunhei diversos casos de mulheres vestindo trajes inadequados para um ambiente acadêmico, e nenhum deles se tornou notícia nacional.

A notícia da semana começou com os triviais gritos de “gostosa!” ecoando pelos corredores da instituição. As colegas dela colaram no vidro da sala em que ela estava um cartaz com os dizeres “Fotos da Loirão: R$10,00”. O quadro de brincadeira informal se transformou em alvoroço quando alguns primatas (chamar de estudantes seria bondade demais) começaram a perseguir Geysi, chamando-a por nomes de baixo calão, causando constrangimento e forçando ela a se refugiar dentro da sala de aula, que rapidamente estava rodeada por uma horda de animais, que esmurravam porta e janelas, bradavam celulares tirando fotos e gravando vídeos, e ainda gritando palavrões para desqualificá-la. O que poderia ser um evento isolado e rapidamente controlado pela intervenção de alguma(s) alma(s) de bom senso, se transformou em um evento que parou a universidade, que tinha todos os seus alunos concentrados no saguão principal. Foi necessária a intervenção da polícia – sim, da POLÍCIA MILITAR – para retirar Geysi do prédio, a essa altura devidamente coberta por um roupão de professor.

Os vídeos gravados pelos celulares apareceram pela internet alguns dias depois, e o bafafá inicial da notícia se deu pela rede social Twitter. A velocidade da informação virtual permitiu que várias pessoas dessem os seus pitacos informais sobre a situação desagradável que aconteceu na Uniban. Como em toda boa polêmica, o público se dividia quase que igualmente. Uns apoiavam Geysi, condenando a multidão de trogloditas; enquanto outros apoiaram a intolerância acontecida, chegando a dizer que ela havia merecido (!) o tratamento. Alguns preferiam fazer piadas, como por exemplo a que compara a Uniban ao Taliban, que partilham tanto a última sílaba quanto os métodos de seleção de vestuário das mulheres.

Mais alguns dias após o assunto já ter esfriado na internet, a televisão e a mídia impressa descobriram o potencial de Geysi, ou melhor, do seu microvestido rosa. O público em massa descobriu o que havia acontecido naquela universidade, e o assunto rapidamente voltou à tona. Enfrentando a pressão da massa, o reitor Heitor Pinto Filho resolveu submeter Geysi a uma nova humilhação: expulsou-a da faculdade, ao passo que seis dos baderneiros boca-suja levaram apenas suspensões.

Foi aí que a jiripoca piou. As discussões se acaloraram, chegando ao ponto de alunos da UnB tirarem as roupas (só tavam esperando a oportunidade certa, né?…) em um protesto em apoio à aluna.

Bem, introdução feita, vamos ao que eu realmente quero dizer. A confusão se encerrou, os trogloditas voltaram a estudar, o reitor voltou atrás na decisão da expulsão, e qual o resultado final? Geysi está na boca do povo. Geysi está bem para carvalho. Para estudante de uma universidade particular com preços populares (a mensalidade flutua pouco acima dos 400 reais), uma exposição dessas veio muito a calhar.

“Raí, seu insensível machista”, as leitoras femininas gritam. Calma, moçoilas. Acompanhem o meu raciocínio. Eu não quero dizer que Geysi mereceu o tratamento que recebeu dos colegas de graduação. Eu só acho errado apontá-la como vítima da sociedade. Uma mulher como ela não teve o caráter posto em xeque, foi ela própria que o fez ao usar um traje completamente fora dos padrões! E tal qual a baiana professorinha infantil que ganhou fama após dançar seminua em cima de um palco de uma casa de shows de Salvador, Geysi agora poderá colher os frutos da fama. Antes do reitor da Uniban anular a expulsão, surgiram dois convites de outras instituições para que Geysi pudesse estudar de graça. É isso aí, bolsa integral. Não por esforço, dedicação e estudo, mas por um vestidinho rosa que fica apertado até em botijão de gás.

Mas não são os convites acadêmicos os mais tentadores, ah não. Geysi Arruda já apareceu em diversas reportagens televisivas posando de vítima. AH, importante lembrar: trajando sempre o vestido que a tornou famosa. Ela já estuda a possibilidade de – ora, como não! – fazer comercial de uma marca de lingerie e posar nua.

Sabe o mais interessante? Na tarde de segunda-feira, dia 16/11/2009 (véspera da publicação desse texto, quase um mês após o desfile de barbaridades na Uniban), a NASA efetuou da base de Cabo Canaveral, nos EUA, o lançamento do ônibus espacial Atlantis. A missão é levar peças de reposição para a estação espacial, com uma previsão de vôo de 11 dias. Enquanto isso, os holofotes da mídia brasileira estão voltados para uma universidade recheada de elementos irracionais, e uma celebridade instantânea de cabelos oxigenados e pouca roupa.

Na boa, esperto mesmo era o Gabriel, O Pensador, que há muitos anos atrás batizou seu disco com um nome perfeito para descrever a mentalidade da massa brasileira: “Nádegas a declarar”

Sobre mulheres e equilíbrio visual

novembro 14, 2009

Sou um admirador de mulher. Não discrimino tamanho, biotipo, raça, nem idade (respeitando os padrões não-pedofilísticos, claro). Me encanto com loiras e morenas, baixinhas e altonas, cheinhas e semi-bumílicas. Para resumir parafraseando o comediante Chris Rock, “eu olho o menu todinho de mulheres”. Mas uma parte desse menu que me chama a atenção de maneira especial são os ambientes de escolas particulares. Não cabe discutir aqui a influência (ou a inexistência de uma) da diferença de classe social entre escolas particulares e públicas na aparência das alunas, mas uma coisa é fato – escola particular só tem mulher bonita. É inacreditável. Observando o corpo discente – e que corpo – dessas instituições, e me perguntava: será que alguma menina feia estuda nesses lugares?

Pertinho da minha casa, existem três colégios particulares – indo pro lado do Iguatemi, tem o Versailles e o Persona; e pro outro lado, virando para a orla marítima, tem o Anchieta. Em passeios despretensiosos pelo bairro ao lado do meu primo e melhor amigo Mateus (falo mais sobre ele em outra oportunidade), apreciamos esses lugares cheios de beleza. Mas no fundo de nossos corações, procuramos mesmo é as feias. Porque por mais divino que um ambiente seja, há de ter um resquício de feíura, um pedacinho de visão do inferno que seja. Um colégio tem que se parecer com um colégio, não com uma quadro renascentista. Me arranje uma estrábica, porra, uma vesguinha que seja pra instalar o equilíbrio visual!

Mas algum dia, as feias vão se revelar. Eu só temo que esse dia chegue sem o meu testemunho. Já sonhei com o momento – estão lá, na lanchonete na esquina depois do prédio no qual eu estagiava (que tem o pior cheeseburguer que já comi na minha vida, veja como pesadelos se acumulam), dois garotos adolescentes, discutindo sobre a relatividade da flexibilidade do rabo do gato, quando de repente, acontece. Duas meninas – mais feias que briga de foice de  cego, num filme do Tarantino –  voltando da aula matinal. E então. ao invés de um catálogo detalhado, registro visual em 2048×1536 pixels e entrada num possível nome para a espécie (privadis horribilum?), eles apenas comentam superficialmente um evento com potencial para alterar o mundo como conhecemos. Entre na minha mente. Partilhe da minha indignação.

–        Ih, alá vei! As baranga de farda!

–        Quê?

–        Ali, duas menina do Persona. Todas as duas, feias!

–        Né possível.

–        Tô dizendo.

–        Cê tá brincando.

–        Rum.

–        Justo aquele colégio que só tem gostosa! Isso não faz sentido. Deve ter alguma coisa de errado com a Matrix. Bem que eu vi o gato da dona Meridiana passar duas vezes pro mesmo lado do playground, hoje de manhã.

–        Não viaja, parceiro. Te falei que aquela maratona de filmes ia te fazer mal.

–        Fica na sua, que eu não quero te lembrar de um certo anel de noivado que foi parar na panela cheia de feijão fervente.

–        Eu não sei do que você está falando.

–        Aham. Vai falar isso pra Mariana. Ela vai casar daqui a dois meses, melhor você ir juntando o dinheiro pra comprar um novo. Se eu fosse você, teria pulado na panela atrás do “precioooosssso”.

–        Sem querer soar repetitivo: eu não sei do que você está falando. Voltando pro assunto dos canhões do Persona, deve ser algum distúrbio alimentar. A menina fica deprimida por causa do namorado galinha, começa a comer chocolate demais, engorda, as espinhas aparecem, sabe como é essas coisas.

–        Que nada. Ainda acho que é zica da Matrix.

–        Ô véi, que idéia fixa… Desde que instalaram o Windows Seven no mainframe da Matrix, nunca deu problema, e você fica nessa neurose. Vamo fazer o seguinte, liga aí pra galera de Zion, já falou com eles hoje?

–        Já liguei. Só dá ocupado.

–        Iiiih…

–        Tô dizendo.

–        Rapaz, se colocarem Linux naquela merda, eu vou ficar pirado.

–        Né?

–        Rum.

E os nerds voltam a falar sobre a relatividade da flexibilidade do rabo do gato, sepultando pra sempre aquele momento nas suas memórias. O sonho acaba num fade out, acompanhado daquela risada medonha da música Thriller. Sempre acordo em um pulo, suando frio, e, por alguma razão, morrendo de vontade de comer pizza de frango catupiry. Vai entender.

O Novo bom e velho Orkut

novembro 11, 2009

Como todos sabem (ou deveriam saber), o Orkut foi criado pelo turco que deu o próprio nome para a rede social mais popular por essas bandas. Muito mais da metade dos usuários são brasileiros – pra falar a verdade, eu nunca vi nenhum perfil que não fosse brasileiro ou iraniano.

A proposta era criar uma rede social capaz de proporcionar a integração entre os usuários, e promover eventos como shows, seminários e até mesmo reencontros de antigos colegas de escola/faculdade/trabalho. Essa proposta caiu por terra. Com o passar dos anos, o Orkut se tornou o antro de bobagens mais acessado por usuários tupiniquins, enquanto os perfis de usuários cumprem tão somente a função de grandes álbuns de fotos virtuais. Isso sem falar de certos elementos boca-suja, que ao se esconder na anonimidade de um perfil falso – os famigerados “fakes” – , poluem visualmente as comunidades alheias com conteúdo descartável.

Nesse faroeste virtual, surge uma novidade. O Orkut está mudando após quase dois anos no seu antigo layout. Junto com a mudança de layout, também surgem funcionalidades novas, que prometem aumentar a praticidade na navegação. Outra “notícia” é a volta o antigo sistema de cadastro do Orkut dos tempos áureos, ou seja, é necessário um convite de outra pessoa para poder fazer parte da festa.

Alguns poucos orkuteiros ainda vêem algum propósito em usar o site para checar diariamente os seus recados, e se comunicar off-line com sua lista de amigos. É para esses usuários adictos que a nova cara do site traz vantagens: o site agora traz uma integração maior entre as partes do perfil que antes jaziam separadas – perfil, recados, álbum de fotos, videos e aplicativos (como o irritante BuddyPoke!) agora podem ser vizualizados numa página só, graças à reformulação no código do site.

“Peraí um segundo, como assim reformulação de código?”, diriam os usuários avançados de computador já prevendo o inevitável. Trocando em miúdos, a mudança de código quer dizer que o novo Orkut não será compatível com alguns browsers antigos, como por exemplo o Internet Explorer 6.

Há uma série de detalhes a serem descobertos e comentados, já que são apenas duas semanas de testes, e ainda não houve a migração completa dos usuários. Como recém-convidado, eu digo: não é nada demais. Ainda me vejo mais fascinado pela velocidade supersônica de informação do Twitter ou pela integração global de outras redes como Facebook e Myspace. A troca de ares fez bem, mas não modificou em nada o maior problema do Orkut: os usuários.

Sono

novembro 6, 2009

Segunda-feira. Diazinho pirracento, daqueles que depois de um final de semana chuvoso, faz brilhar o sol mais bonito dos últimos meses só pra tostar você bem ali, na estampa da camisa. Estava eu, após uma noite mal dormida e uma manhã puxada no estágio, labutando o meu caminho sob o sol escaldante até o ponto de ônibus. Esperaria lá o meu Estação Mussurunga, ou o Sussuarana, ou o Doron, ou até mesmo o cacófato Pau da Lima. Quase todos lugares que eu não conhecia, mas que respeitava no fundo do coração por serem o estandarte do meu transporte até o quartel-general da balbúrdia, o santuário dos maconheiros; e vá lá, provedor de doses homeopáticas de conhecimento – a faculdade. Andei o caminho todo, e fiquei em pé no ponto, embaixo da sombra escassa disponível. Morrendo de sono, imaginando como ia conseguir acompanhar a aula.

Eu precisava desesperadamente de uma soneca providencial no ônibus, daquelas que quando você menos espera – olhos fechados, boca semi-aberta, breves sonhos com aquela sua vizinha que adora um short curto. Antes do sonho tomar maiores proporções e um sorriso se formar na sua boca já semi-aberta, você desperta, “Nossa, eu tava cochilando?”, “Será que alguém roubou minha carteira?”, etc, etc. Sabe como é.

Após uns bons 10 minutos de espera, passou o Doron, listradinho de amarelo e vermelho sob o fundo branco, e o nome da empresa escrito em azul, uma graça. Subi esperando encontrar um refúgio para o meu breve repouso, mas não. A Lei de Murphy resolveu mostrar os seus poderes, e como eu precisava de uma soneca, o ônibus presicava estar cheio. Lei é lei. Não consegui um lugar pra sentar. Penser em colocar em dia os meus conhecimentos práticos da técnica vanguardista de soneca stand-up, mas preferi deixar pra lá. Era melhor dormir na faculdade, antes da aula, em um daqueles bancos metálicos azuis, cheios de furinhos, um negócio horrendo aquilo. Que seja, o meu sono não é tão detalhista quanto eu.

Quando finalmente o meu ponto chegou, desci andando a passos determinados rumo ao que seria minha cama improvisada. Nem tão devagar, que me faria perder segundos preciosos de sono; nem tão rápido, o que me faria suar e despertar completamente – optei pelo meio-termo, a eficiência de um assassino silencioso que caminha desapercebido (mesmo que debaixo de um sol de lascar) Cheguei no banco, e lembrei de um detalhe – eu havia esquecido o meu caderno em casa. O final de semana foi na casa de tios e eu usei a mochila pra levar as roupas. No clima de galhofada, voltei pra casa tarde e só pensava em dormir (não confunda as histórias). Esqueci de arrumar as coisas da faculdade.

Preocupação devido à impossibilidade de copiar os esquemas de estudo? Indignação por não ter folhas pra rabiscar desenhos toscos? Não. Era desespero o que eu sentia. Por ter esquecido o meu travesseiro.

Me senti encurralado por falta de opções. Deitar apoiando a cabeça num ângulo desconfortável, nem pensar. Também não dava pra sentar, porque o banco era muito colado na parede e parafusado no chão – o que também excluía a possibilidade de carregar o banco como um aríete para arrombar a porta da coordenação, reinvindicando bancos mais decentes, mais humanos, mais sonecáveis. No mínimo com menos furinhos, pô!

Daí me ocorreu uma idéia genial, modéstia à parte. Eu costumava usar o meu caderno fiel, mas porque não um livro? A biblioteca era a minha salvação. Isso, eu iria subir do subsolo até o 4º andar, em busca do meu travesseiro suplente. Esperar pelo elevador não era opção, eu só tinha 20 minutos até começar a aula. Encarei a escada.

Ao chegar na biblioteca, consultei o arquivo em busca do recosto perfeito. Um livro de Cálculo Numérico? Que tal um de Resistências dos Materiais? Não, não, muito grosso. Dá torcicolo, e o professor vai achar que eu tô inclinando a cabeça na aula porque não tô entendendo nada. Olhei pra um livro de Programação em Java, e lembrei dos alunos malas de Engenharia da Computação que habitam os corredores da faculdade, à procura de interessados na Bíblia da Programação. Preferi passar.

O livrinho vermelho de Geometria Analítica era pequeno demais, e ainda me fazia parecer um calouro. O de Circuitos Elétricos me faria ter pesadelos com o professor brincalhão que cobrava o céu e o inferno na prova; o livro de Equações Diferenciais me daria vontade de resolver as questões ao invés de dormir; e andar por aí com um exemplar do “Sinais e Sistemas”, livro-referência de Análise de Sistemas Lineares (talvez a matéria mais difícil do curso), nem pensar. Eu atrairia olhares de inveja e ódio por onde passasse. Foi aí que encontrei um livro antigo de Metodologia de Pesquisa Científica. Era uma matéria que eu já tinha cursado há tempos, e não me despertava mais interesse, se é que despertou algum dia. Mas a obra tinha um formato relativamente ergonômico, e umas espanadas com a palma da mão cuidariam da poeira. Agora só faltavam 15 minutos pra aula, não havia tempo pra procurar demais. Seria aquele mesmo.

Escolha feita, fui até a bibliotecária para fazer o empréstimo. Apresento documento de identidade, entrego o livro, já mentalizando o que ia dizer pra minha vizinha de short curto quando a encontrasse no sonho. Puxar assunto sobre o jogo do Vitória não deu certo da última vez. Dessa vez eu falaria de flores e chocolate. Serenata de Amor, Chokito? Margaridas? Não…. Lírios, é, lírios. Lírios e Diamante Negro. A bibliotecária me desperta das preliminares do cochilo, dizendo que não poderia pegar o livro naquele dia. Por que, moça de óculos, por que? Eu já havia atingido o limite de livros emprestados, três no total. E pra minha tristeza, todos estavam também em casa, ou perdidos em alguma escrivaninha da casa do meu tio.

Desisti de dormir. Faltava pouco tempo pra aula, e não adiantava mais ter esperança. Desci lentamente as escadas até o subsolo novamente, para entrar na sala. Nem lamentei ter esquecido os livros em casa. Todos os três eram de Análise mesmo…