Sono

Segunda-feira. Diazinho pirracento, daqueles que depois de um final de semana chuvoso, faz brilhar o sol mais bonito dos últimos meses só pra tostar você bem ali, na estampa da camisa. Estava eu, após uma noite mal dormida e uma manhã puxada no estágio, labutando o meu caminho sob o sol escaldante até o ponto de ônibus. Esperaria lá o meu Estação Mussurunga, ou o Sussuarana, ou o Doron, ou até mesmo o cacófato Pau da Lima. Quase todos lugares que eu não conhecia, mas que respeitava no fundo do coração por serem o estandarte do meu transporte até o quartel-general da balbúrdia, o santuário dos maconheiros; e vá lá, provedor de doses homeopáticas de conhecimento – a faculdade. Andei o caminho todo, e fiquei em pé no ponto, embaixo da sombra escassa disponível. Morrendo de sono, imaginando como ia conseguir acompanhar a aula.

Eu precisava desesperadamente de uma soneca providencial no ônibus, daquelas que quando você menos espera – olhos fechados, boca semi-aberta, breves sonhos com aquela sua vizinha que adora um short curto. Antes do sonho tomar maiores proporções e um sorriso se formar na sua boca já semi-aberta, você desperta, “Nossa, eu tava cochilando?”, “Será que alguém roubou minha carteira?”, etc, etc. Sabe como é.

Após uns bons 10 minutos de espera, passou o Doron, listradinho de amarelo e vermelho sob o fundo branco, e o nome da empresa escrito em azul, uma graça. Subi esperando encontrar um refúgio para o meu breve repouso, mas não. A Lei de Murphy resolveu mostrar os seus poderes, e como eu precisava de uma soneca, o ônibus presicava estar cheio. Lei é lei. Não consegui um lugar pra sentar. Penser em colocar em dia os meus conhecimentos práticos da técnica vanguardista de soneca stand-up, mas preferi deixar pra lá. Era melhor dormir na faculdade, antes da aula, em um daqueles bancos metálicos azuis, cheios de furinhos, um negócio horrendo aquilo. Que seja, o meu sono não é tão detalhista quanto eu.

Quando finalmente o meu ponto chegou, desci andando a passos determinados rumo ao que seria minha cama improvisada. Nem tão devagar, que me faria perder segundos preciosos de sono; nem tão rápido, o que me faria suar e despertar completamente – optei pelo meio-termo, a eficiência de um assassino silencioso que caminha desapercebido (mesmo que debaixo de um sol de lascar) Cheguei no banco, e lembrei de um detalhe – eu havia esquecido o meu caderno em casa. O final de semana foi na casa de tios e eu usei a mochila pra levar as roupas. No clima de galhofada, voltei pra casa tarde e só pensava em dormir (não confunda as histórias). Esqueci de arrumar as coisas da faculdade.

Preocupação devido à impossibilidade de copiar os esquemas de estudo? Indignação por não ter folhas pra rabiscar desenhos toscos? Não. Era desespero o que eu sentia. Por ter esquecido o meu travesseiro.

Me senti encurralado por falta de opções. Deitar apoiando a cabeça num ângulo desconfortável, nem pensar. Também não dava pra sentar, porque o banco era muito colado na parede e parafusado no chão – o que também excluía a possibilidade de carregar o banco como um aríete para arrombar a porta da coordenação, reinvindicando bancos mais decentes, mais humanos, mais sonecáveis. No mínimo com menos furinhos, pô!

Daí me ocorreu uma idéia genial, modéstia à parte. Eu costumava usar o meu caderno fiel, mas porque não um livro? A biblioteca era a minha salvação. Isso, eu iria subir do subsolo até o 4º andar, em busca do meu travesseiro suplente. Esperar pelo elevador não era opção, eu só tinha 20 minutos até começar a aula. Encarei a escada.

Ao chegar na biblioteca, consultei o arquivo em busca do recosto perfeito. Um livro de Cálculo Numérico? Que tal um de Resistências dos Materiais? Não, não, muito grosso. Dá torcicolo, e o professor vai achar que eu tô inclinando a cabeça na aula porque não tô entendendo nada. Olhei pra um livro de Programação em Java, e lembrei dos alunos malas de Engenharia da Computação que habitam os corredores da faculdade, à procura de interessados na Bíblia da Programação. Preferi passar.

O livrinho vermelho de Geometria Analítica era pequeno demais, e ainda me fazia parecer um calouro. O de Circuitos Elétricos me faria ter pesadelos com o professor brincalhão que cobrava o céu e o inferno na prova; o livro de Equações Diferenciais me daria vontade de resolver as questões ao invés de dormir; e andar por aí com um exemplar do “Sinais e Sistemas”, livro-referência de Análise de Sistemas Lineares (talvez a matéria mais difícil do curso), nem pensar. Eu atrairia olhares de inveja e ódio por onde passasse. Foi aí que encontrei um livro antigo de Metodologia de Pesquisa Científica. Era uma matéria que eu já tinha cursado há tempos, e não me despertava mais interesse, se é que despertou algum dia. Mas a obra tinha um formato relativamente ergonômico, e umas espanadas com a palma da mão cuidariam da poeira. Agora só faltavam 15 minutos pra aula, não havia tempo pra procurar demais. Seria aquele mesmo.

Escolha feita, fui até a bibliotecária para fazer o empréstimo. Apresento documento de identidade, entrego o livro, já mentalizando o que ia dizer pra minha vizinha de short curto quando a encontrasse no sonho. Puxar assunto sobre o jogo do Vitória não deu certo da última vez. Dessa vez eu falaria de flores e chocolate. Serenata de Amor, Chokito? Margaridas? Não…. Lírios, é, lírios. Lírios e Diamante Negro. A bibliotecária me desperta das preliminares do cochilo, dizendo que não poderia pegar o livro naquele dia. Por que, moça de óculos, por que? Eu já havia atingido o limite de livros emprestados, três no total. E pra minha tristeza, todos estavam também em casa, ou perdidos em alguma escrivaninha da casa do meu tio.

Desisti de dormir. Faltava pouco tempo pra aula, e não adiantava mais ter esperança. Desci lentamente as escadas até o subsolo novamente, para entrar na sala. Nem lamentei ter esquecido os livros em casa. Todos os três eram de Análise mesmo…

 

Anúncios

Tags: ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: