Smartphone sem bluetooth

Eu sou um graduando em Engenharia de Controle e Automação.

E eu sou um hipócrita.

É verdade. Eu sou um hipócrita de marca maior e tenho cara de pau o suficiente pra assumir isso. Afinal, só um detentor de uma personalidade patológica poderia escolher como carreira uma profissão que vai, mesmo que parcialmente, contra seus princípios morais. Calminha, que eu já expico.

Além de graduando em Engenharia e um desviado moral, eu sou um amante da natureza. Pois é. Apesar de morar num apartamento e raramente sair de casa a não ser para atender a compromissos diários, eu me sinto muito bem nas esporádicas visitas que faço ao terreno da minha tia, onde posso beber água de coco de graça, ficar de pernas pro ar e bater um papo com os mosquitos. Fico triste ao ver as recorrentes notícias de desmatamento e poluição nos jornais, apesar de não fazer idéia do que fazer para ajudar a melhorar a situação.

Pois bem, como diz a sabedoria popular, “se não vai ajudar, não atrapalhe!”. Eu devo ter esquecido disso quando decidi seguir a carreira de Controle e Automação. De certa maneira, o meu curso representa o oposto da minha crença ambientalista. O Engenheiro Mecatrônico, como também é conhecido, trabalha na automação e manutenção de sistemas industriais,  e at last but not at least, os robôs! É esse o grande chamariz da área – jovens idealizadores, fãs de filmes e livros ficção científica ou meros entusiastas da tecnologia são atraídos pela promessa de uma carreira de sonhos, com o desenvolvimentos de humanóides metálicos e de aparência agradável como ganha-pão.

Mas na maioria das vezes a expectativa dessas pessoas não é correspondida. Atualmente, a automação industrial acaba por ser o destino da maioria dos profissionais recém-formados.

Abre parênteses. Comentário fora do contexto, mas que eu senti que precisava estar nesse texto. Pense bem, o que acontece com um mercado de trabalho repleto de jovens sedentos por uma vaga, recém-saídos de um curso que é frequentemente apontado como “a profissão do futuro”? Pois é. Ainda não aconteceu, mas o mercado eventualmente vai saturar. Fecha parênteses.

A proliferação de indústrias não é algo que possa, e no contexto atual, nem algo que deva ser retraído. Mas eu me sinto mal às vezes por fazer parte desta investida contra a natureza . E sei também que muitas indústrias se movimentam para ajudar em questão ao caos ambiental, mas não são o suficiente, quanto mais a maioria. Isso sem falar que certamenta há aquelas que só usam isso como fachada para marketing.

No mais, eu me sinto culpado também por fazer parte da revolução tecnológica que nos tira a inocência e imaginação. Será que o nosso mundo high-tech é um passo à frente ou para trás na escala da evolução? Nós temos máquinas para fazer nossa tarefas e enquanto isso deixamos a nossa própria capacidade cair no ostracismo. O pior é que eu, apesar de acreditar nisso, sou um  junkie tecnológico também. Na tarde do dia que escrevi esse texto, eu comprei o meu iPod Touch no site da Apple. Nossos avós jogavam telefone sem fio, nós brincamos de smartphone sem bluetooth, e os nossos netos vão brincar de, sei lá, telepatia hidrocinética sem emulsivo fotoacoplador. Que venha 2012.

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5 Respostas to “Smartphone sem bluetooth”

  1. Daniel skygod Says:

    telepatia hidrocinética ahuuhahua

  2. Juninho' Says:

    belo texto, você escreve super bem :O

  3. Alice Says:

    Não é necessário se martirizar com isso. Na verdade não existe nada que não se possa ser modificado. Se vc acredita que está indo na contramão, mude de direção! Pois tudo é possível (como diria a Eliana)… e não é papo de ambientalista sonhador não (como sou classificada por muitos) é papo de uma pessoa que realmente acredita nisso ^^
    Conto com vc para desenvolver novas tecnologias com uma “pegada” mais ambiental ^^

    Beijos e belo texto!

  4. Elias Says:

    gostei do texto cara
    ^^

  5. Elisabete (pliiima) Says:

    Muito bom o texto. Porém, sinto lhe informar, mas você não está só nesta! Contudo, acompanho a o comentário da Alice. Em suma “vamos melhorar o mundo com as armas que possuimos.”

    beijocas.

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