O Céu

Mais uma tardinha.

Era mais um dia chegando ao seu fim, completando seu ciclo vicioso que resiste à passagem do tempo. O sol a lua, as nuvens e as estrelas – protagonistas e figurantes daquela peça, que se repetia diariamente, mas que jamais tinha um espetáculo igual ao outro. Claro que os espectadores mais frequentes e estudiosos já sabiam as dicas – a movimentação previsível dos artistas. O sol fica mais tempo em cena em determinada parte do ano, por exemplo. Se as estrelas se escondiam atrás das nuvens do céu noturno, certamente estavam fugindo de alguma manifestação pluvial eminente. E o que dizer do trabalho dos contra-regras? Trocar o pano de fundo de azul, para um lilás rabiscado de laranja, e enfim para o preto.

Era repetivivo.

Os observadores mais casuais não achavam mais graça, entretidos em outros espetáculos disponíveis. Tudo cabia dentro de quadros metálicos, exibidos em telas luminosas de um brilho falso que não se fazia à altura dos astros do show principal. Mas existia um grande trunfo – a possibilidade de interação!

Fascinados pela possibilidade de manipular as condições, todas essas pessoas ficaram dispersas. Era incrível poder brincar com o destino daqueles pontos de luz, adicionar um toque de imprevisibilidade ao roteiro. E estava tudo ali, ao alcance de um toque na tela. Muito mais do que ao alcance – estava sob o seu domínio.

Mais e mais espectadores abandonaram o espetáculo original d’O Céu, entretidos com a possibilidade de emular o seu próprio show. Brincar com seu mundo particular. Se tornaram mais exigentes, criaram padrões de desenvolvimento e apuração de como criar melhor, mais rápido. E como consumidores, elaboraram maneiras de compartilhar, criticar e elogiar o trabalho de outras pessoas. Interagir.

Criou-se um sistema aparentemente perfeito! Um mundo à parte do nosso mundo físico, uma realidade alternativa, uma quinta dimensão na qual se pode viajar sem mesmo sair de casa.

Mas o crescimento exponencial de quantidade de atrações neste mundo alternativo sugere um futuro turbulento. A estrutura criada suporta os atores que já existem, os contra-regras que já trabalham, e uma platéia que já assiste. Mas e os que virão? Nenhuma ferramenta desenvolvida pode ser chamada de definitiva. Os padrões de qualidade aumentam, a velocidade de informação dispara, mas ao mesmo tempo a descartabilidade cresce mais rápido ainda. Um dia, tudo irá ruir, e bilhões de atrações morrerão, deixando uma platéia viciada e incapaz.

Já O Céu não precisa de estrutura adicional, não precisa recorrer a novos meios de veiculação. Não há necessidade de reciclar o elenco, não há necessidade de dar férias à equipe dos bastidores. Ele se auto-sustenta, e o espetáculo nunca deixou de ser exibido.

E ainda está lá, o sol. Sobe e desce, nasce e se pôe, ilumina as manhãs com seu vigor caloroso, só para no final do dia perecer, e deixar como memória do seu esplendor as imagens dos pintores, a descrição dos poetas… E a indiferença dos alienados.

E faz isso com naturalidade, como quem diz “vou lá e volto”.

Só que ele volta mesmo.

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Uma resposta to “O Céu”

  1. Gabi Says:

    =~

    Lindo!

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