Posts Tagged ‘brasil varonil’

Patuléia Virtual

janeiro 21, 2010

Geraldo estava de folga naquela quinta. Na verdade, estava em telecomutação – que na teoria, é trazer trabalho para fazer em casa; na prática, é uma desculpa para ficar sem fazer nada, deixando as aparências mostrarem que ele está sendo produtivo. O laptop no qual ele deveria estar atualizando as planilhas arcaicas do setor de T.I. da sua empresa estava em modo de espera, e Geraldo estava em frente à TV com os dedos da mão direita enfiados na calça e a mão esquerda alternando entre o domínio de um sanduíche de queijo e lombinho e um controle remoto, consequentemente engordurado picas.

Eis que então surge uma voz:

– Painho, posso usar o laptop? – era o filho adolescente do Geraldo, o Luiz.
– Não mexe no equissel.
– Viu!

E o Luizinho reativou o laptop, rapidamente acessando o MSN Messenger pra confabular com os amiguinhos. Sem demora surgem novas janelas piscando em laranja – sinais de que a patuléia virtual clama por suas palavras. Era um cara popular.

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Chá de Geysi Arruda

novembro 17, 2009

É, eu tentei ficar calado pra não dar mais ibope, mas depois de ler a reportagem da Veja sobre o assunto, resolvi quebrar o meu silêncio e me pronunciar sobre.

Para quem faz parte da minoria que não sabe do que se trata o “caso Uniban”, vamos à introdução ao contexto (alguns destes dados foram retirados da reportagem que li). Na noite do dia 22 de Outubro de 2009, a estudante universitária Geysi Arruda compareceu ao campus da Uniban (Universidade Bandeirante) trajando um microvestido rosa. Até aí não há nada sensacional. Eu próprio já testemunhei diversos casos de mulheres vestindo trajes inadequados para um ambiente acadêmico, e nenhum deles se tornou notícia nacional.

A notícia da semana começou com os triviais gritos de “gostosa!” ecoando pelos corredores da instituição. As colegas dela colaram no vidro da sala em que ela estava um cartaz com os dizeres “Fotos da Loirão: R$10,00”. O quadro de brincadeira informal se transformou em alvoroço quando alguns primatas (chamar de estudantes seria bondade demais) começaram a perseguir Geysi, chamando-a por nomes de baixo calão, causando constrangimento e forçando ela a se refugiar dentro da sala de aula, que rapidamente estava rodeada por uma horda de animais, que esmurravam porta e janelas, bradavam celulares tirando fotos e gravando vídeos, e ainda gritando palavrões para desqualificá-la. O que poderia ser um evento isolado e rapidamente controlado pela intervenção de alguma(s) alma(s) de bom senso, se transformou em um evento que parou a universidade, que tinha todos os seus alunos concentrados no saguão principal. Foi necessária a intervenção da polícia – sim, da POLÍCIA MILITAR – para retirar Geysi do prédio, a essa altura devidamente coberta por um roupão de professor.

Os vídeos gravados pelos celulares apareceram pela internet alguns dias depois, e o bafafá inicial da notícia se deu pela rede social Twitter. A velocidade da informação virtual permitiu que várias pessoas dessem os seus pitacos informais sobre a situação desagradável que aconteceu na Uniban. Como em toda boa polêmica, o público se dividia quase que igualmente. Uns apoiavam Geysi, condenando a multidão de trogloditas; enquanto outros apoiaram a intolerância acontecida, chegando a dizer que ela havia merecido (!) o tratamento. Alguns preferiam fazer piadas, como por exemplo a que compara a Uniban ao Taliban, que partilham tanto a última sílaba quanto os métodos de seleção de vestuário das mulheres.

Mais alguns dias após o assunto já ter esfriado na internet, a televisão e a mídia impressa descobriram o potencial de Geysi, ou melhor, do seu microvestido rosa. O público em massa descobriu o que havia acontecido naquela universidade, e o assunto rapidamente voltou à tona. Enfrentando a pressão da massa, o reitor Heitor Pinto Filho resolveu submeter Geysi a uma nova humilhação: expulsou-a da faculdade, ao passo que seis dos baderneiros boca-suja levaram apenas suspensões.

Foi aí que a jiripoca piou. As discussões se acaloraram, chegando ao ponto de alunos da UnB tirarem as roupas (só tavam esperando a oportunidade certa, né?…) em um protesto em apoio à aluna.

Bem, introdução feita, vamos ao que eu realmente quero dizer. A confusão se encerrou, os trogloditas voltaram a estudar, o reitor voltou atrás na decisão da expulsão, e qual o resultado final? Geysi está na boca do povo. Geysi está bem para carvalho. Para estudante de uma universidade particular com preços populares (a mensalidade flutua pouco acima dos 400 reais), uma exposição dessas veio muito a calhar.

“Raí, seu insensível machista”, as leitoras femininas gritam. Calma, moçoilas. Acompanhem o meu raciocínio. Eu não quero dizer que Geysi mereceu o tratamento que recebeu dos colegas de graduação. Eu só acho errado apontá-la como vítima da sociedade. Uma mulher como ela não teve o caráter posto em xeque, foi ela própria que o fez ao usar um traje completamente fora dos padrões! E tal qual a baiana professorinha infantil que ganhou fama após dançar seminua em cima de um palco de uma casa de shows de Salvador, Geysi agora poderá colher os frutos da fama. Antes do reitor da Uniban anular a expulsão, surgiram dois convites de outras instituições para que Geysi pudesse estudar de graça. É isso aí, bolsa integral. Não por esforço, dedicação e estudo, mas por um vestidinho rosa que fica apertado até em botijão de gás.

Mas não são os convites acadêmicos os mais tentadores, ah não. Geysi Arruda já apareceu em diversas reportagens televisivas posando de vítima. AH, importante lembrar: trajando sempre o vestido que a tornou famosa. Ela já estuda a possibilidade de – ora, como não! – fazer comercial de uma marca de lingerie e posar nua.

Sabe o mais interessante? Na tarde de segunda-feira, dia 16/11/2009 (véspera da publicação desse texto, quase um mês após o desfile de barbaridades na Uniban), a NASA efetuou da base de Cabo Canaveral, nos EUA, o lançamento do ônibus espacial Atlantis. A missão é levar peças de reposição para a estação espacial, com uma previsão de vôo de 11 dias. Enquanto isso, os holofotes da mídia brasileira estão voltados para uma universidade recheada de elementos irracionais, e uma celebridade instantânea de cabelos oxigenados e pouca roupa.

Na boa, esperto mesmo era o Gabriel, O Pensador, que há muitos anos atrás batizou seu disco com um nome perfeito para descrever a mentalidade da massa brasileira: “Nádegas a declarar”