Posts Tagged ‘cotidiano’

Vida de peão

março 26, 2010

Desde o começo deste blog, eu venho postando esporadicamente textos de diversos formatos e conteúdos. Escrevo crônicas que basicamente falam sobre nada, ou seja, um excerto de uma situação verídica ou ficcional, geralmente contada em um tom humorístico (e às vezes, admito, meio forçado). Também faço algumas dissertações, sobre alguns temas que me chamam a atenção, um exemplo é o post sobre a Geysi Arruda, que acabou se tornando o mais visitado do site até então.

Fora isso, quando não tenho tempo ou inspiração para digitar algo mais elaborado, simplesmente escrevo rapidamente sobre um pensamento qualquer que tive, estendendo a idéia, tentando fazer ela tomar proporções de epifania.

Pretendo fazer isso com mais frequência a partir de agora.

(more…)

Alô você…

dezembro 6, 2009

– …vovô que conta sempre as mesmas histórias de pescador. Todos já sabem que você pescou um peixe de 150cm, lá na lagoa Rodrigo de Freitas, no tempo que ela ainda era limpa. Seja mais criativo na mentira!

– …adolescente que começou a ouvir Slipknot há um mês e já se acha a encarnação de Mephisto. Deixe de lado os cânticos de louvor a Satanás e vá decorar a tabuada, meu querido.

– …crente fervoroso que tenta convencer Deus e o mundo de que a sua religião é a correta. Continue congregando em paz com seus irmãos e preserve a paz de espírito alheia. É preciso respeitar pra ser respeitado!

– …metaleirinho que diz não gostar de nada da cultura brasileira e sai por aí com o velho discurso: “Qual a graça de um esporte com 22 homens suados correndo atrás de uma bola?” – Ninguém te ama.

– …flanelinha fardado que cobra o dinheiro logo quando a gente vai estacionar o carro. A gente sabe que você não olha carro porra nenhuma. Portanto, não reclame se a gente não pagar, e dê graças a Deus pelos otários que te sustentam.

– …curso que fornece workshop PAGO em véspera de natal e ano-novo: Eu não compareceria nem de graça. Beijo no cérebro danificado de vocês.

– …torcedor de time que tá ganhando todas e fica tirando sarro dos amigos. Só brinque se aguentar a brincadeira, um dia o seu Dream Team vai tomar ferro e todos vão procurar vingança.

-…e por último, leitor que se identificou com algum dos itens acima: eu te amo do jeito que você é (tirando você, metaleirinho), portanto não deixe de visitar o blog. 🙂

(post inspirado pelas maluquices do @HugoGloss)

Sobre mulheres e equilíbrio visual

novembro 14, 2009

Sou um admirador de mulher. Não discrimino tamanho, biotipo, raça, nem idade (respeitando os padrões não-pedofilísticos, claro). Me encanto com loiras e morenas, baixinhas e altonas, cheinhas e semi-bumílicas. Para resumir parafraseando o comediante Chris Rock, “eu olho o menu todinho de mulheres”. Mas uma parte desse menu que me chama a atenção de maneira especial são os ambientes de escolas particulares. Não cabe discutir aqui a influência (ou a inexistência de uma) da diferença de classe social entre escolas particulares e públicas na aparência das alunas, mas uma coisa é fato – escola particular só tem mulher bonita. É inacreditável. Observando o corpo discente – e que corpo – dessas instituições, e me perguntava: será que alguma menina feia estuda nesses lugares?

Pertinho da minha casa, existem três colégios particulares – indo pro lado do Iguatemi, tem o Versailles e o Persona; e pro outro lado, virando para a orla marítima, tem o Anchieta. Em passeios despretensiosos pelo bairro ao lado do meu primo e melhor amigo Mateus (falo mais sobre ele em outra oportunidade), apreciamos esses lugares cheios de beleza. Mas no fundo de nossos corações, procuramos mesmo é as feias. Porque por mais divino que um ambiente seja, há de ter um resquício de feíura, um pedacinho de visão do inferno que seja. Um colégio tem que se parecer com um colégio, não com uma quadro renascentista. Me arranje uma estrábica, porra, uma vesguinha que seja pra instalar o equilíbrio visual!

Mas algum dia, as feias vão se revelar. Eu só temo que esse dia chegue sem o meu testemunho. Já sonhei com o momento – estão lá, na lanchonete na esquina depois do prédio no qual eu estagiava (que tem o pior cheeseburguer que já comi na minha vida, veja como pesadelos se acumulam), dois garotos adolescentes, discutindo sobre a relatividade da flexibilidade do rabo do gato, quando de repente, acontece. Duas meninas – mais feias que briga de foice de  cego, num filme do Tarantino –  voltando da aula matinal. E então. ao invés de um catálogo detalhado, registro visual em 2048×1536 pixels e entrada num possível nome para a espécie (privadis horribilum?), eles apenas comentam superficialmente um evento com potencial para alterar o mundo como conhecemos. Entre na minha mente. Partilhe da minha indignação.

–        Ih, alá vei! As baranga de farda!

–        Quê?

–        Ali, duas menina do Persona. Todas as duas, feias!

–        Né possível.

–        Tô dizendo.

–        Cê tá brincando.

–        Rum.

–        Justo aquele colégio que só tem gostosa! Isso não faz sentido. Deve ter alguma coisa de errado com a Matrix. Bem que eu vi o gato da dona Meridiana passar duas vezes pro mesmo lado do playground, hoje de manhã.

–        Não viaja, parceiro. Te falei que aquela maratona de filmes ia te fazer mal.

–        Fica na sua, que eu não quero te lembrar de um certo anel de noivado que foi parar na panela cheia de feijão fervente.

–        Eu não sei do que você está falando.

–        Aham. Vai falar isso pra Mariana. Ela vai casar daqui a dois meses, melhor você ir juntando o dinheiro pra comprar um novo. Se eu fosse você, teria pulado na panela atrás do “precioooosssso”.

–        Sem querer soar repetitivo: eu não sei do que você está falando. Voltando pro assunto dos canhões do Persona, deve ser algum distúrbio alimentar. A menina fica deprimida por causa do namorado galinha, começa a comer chocolate demais, engorda, as espinhas aparecem, sabe como é essas coisas.

–        Que nada. Ainda acho que é zica da Matrix.

–        Ô véi, que idéia fixa… Desde que instalaram o Windows Seven no mainframe da Matrix, nunca deu problema, e você fica nessa neurose. Vamo fazer o seguinte, liga aí pra galera de Zion, já falou com eles hoje?

–        Já liguei. Só dá ocupado.

–        Iiiih…

–        Tô dizendo.

–        Rapaz, se colocarem Linux naquela merda, eu vou ficar pirado.

–        Né?

–        Rum.

E os nerds voltam a falar sobre a relatividade da flexibilidade do rabo do gato, sepultando pra sempre aquele momento nas suas memórias. O sonho acaba num fade out, acompanhado daquela risada medonha da música Thriller. Sempre acordo em um pulo, suando frio, e, por alguma razão, morrendo de vontade de comer pizza de frango catupiry. Vai entender.

Sono

novembro 6, 2009

Segunda-feira. Diazinho pirracento, daqueles que depois de um final de semana chuvoso, faz brilhar o sol mais bonito dos últimos meses só pra tostar você bem ali, na estampa da camisa. Estava eu, após uma noite mal dormida e uma manhã puxada no estágio, labutando o meu caminho sob o sol escaldante até o ponto de ônibus. Esperaria lá o meu Estação Mussurunga, ou o Sussuarana, ou o Doron, ou até mesmo o cacófato Pau da Lima. Quase todos lugares que eu não conhecia, mas que respeitava no fundo do coração por serem o estandarte do meu transporte até o quartel-general da balbúrdia, o santuário dos maconheiros; e vá lá, provedor de doses homeopáticas de conhecimento – a faculdade. Andei o caminho todo, e fiquei em pé no ponto, embaixo da sombra escassa disponível. Morrendo de sono, imaginando como ia conseguir acompanhar a aula.

Eu precisava desesperadamente de uma soneca providencial no ônibus, daquelas que quando você menos espera – olhos fechados, boca semi-aberta, breves sonhos com aquela sua vizinha que adora um short curto. Antes do sonho tomar maiores proporções e um sorriso se formar na sua boca já semi-aberta, você desperta, “Nossa, eu tava cochilando?”, “Será que alguém roubou minha carteira?”, etc, etc. Sabe como é.

Após uns bons 10 minutos de espera, passou o Doron, listradinho de amarelo e vermelho sob o fundo branco, e o nome da empresa escrito em azul, uma graça. Subi esperando encontrar um refúgio para o meu breve repouso, mas não. A Lei de Murphy resolveu mostrar os seus poderes, e como eu precisava de uma soneca, o ônibus presicava estar cheio. Lei é lei. Não consegui um lugar pra sentar. Penser em colocar em dia os meus conhecimentos práticos da técnica vanguardista de soneca stand-up, mas preferi deixar pra lá. Era melhor dormir na faculdade, antes da aula, em um daqueles bancos metálicos azuis, cheios de furinhos, um negócio horrendo aquilo. Que seja, o meu sono não é tão detalhista quanto eu.

Quando finalmente o meu ponto chegou, desci andando a passos determinados rumo ao que seria minha cama improvisada. Nem tão devagar, que me faria perder segundos preciosos de sono; nem tão rápido, o que me faria suar e despertar completamente – optei pelo meio-termo, a eficiência de um assassino silencioso que caminha desapercebido (mesmo que debaixo de um sol de lascar) Cheguei no banco, e lembrei de um detalhe – eu havia esquecido o meu caderno em casa. O final de semana foi na casa de tios e eu usei a mochila pra levar as roupas. No clima de galhofada, voltei pra casa tarde e só pensava em dormir (não confunda as histórias). Esqueci de arrumar as coisas da faculdade.

Preocupação devido à impossibilidade de copiar os esquemas de estudo? Indignação por não ter folhas pra rabiscar desenhos toscos? Não. Era desespero o que eu sentia. Por ter esquecido o meu travesseiro.

Me senti encurralado por falta de opções. Deitar apoiando a cabeça num ângulo desconfortável, nem pensar. Também não dava pra sentar, porque o banco era muito colado na parede e parafusado no chão – o que também excluía a possibilidade de carregar o banco como um aríete para arrombar a porta da coordenação, reinvindicando bancos mais decentes, mais humanos, mais sonecáveis. No mínimo com menos furinhos, pô!

Daí me ocorreu uma idéia genial, modéstia à parte. Eu costumava usar o meu caderno fiel, mas porque não um livro? A biblioteca era a minha salvação. Isso, eu iria subir do subsolo até o 4º andar, em busca do meu travesseiro suplente. Esperar pelo elevador não era opção, eu só tinha 20 minutos até começar a aula. Encarei a escada.

Ao chegar na biblioteca, consultei o arquivo em busca do recosto perfeito. Um livro de Cálculo Numérico? Que tal um de Resistências dos Materiais? Não, não, muito grosso. Dá torcicolo, e o professor vai achar que eu tô inclinando a cabeça na aula porque não tô entendendo nada. Olhei pra um livro de Programação em Java, e lembrei dos alunos malas de Engenharia da Computação que habitam os corredores da faculdade, à procura de interessados na Bíblia da Programação. Preferi passar.

O livrinho vermelho de Geometria Analítica era pequeno demais, e ainda me fazia parecer um calouro. O de Circuitos Elétricos me faria ter pesadelos com o professor brincalhão que cobrava o céu e o inferno na prova; o livro de Equações Diferenciais me daria vontade de resolver as questões ao invés de dormir; e andar por aí com um exemplar do “Sinais e Sistemas”, livro-referência de Análise de Sistemas Lineares (talvez a matéria mais difícil do curso), nem pensar. Eu atrairia olhares de inveja e ódio por onde passasse. Foi aí que encontrei um livro antigo de Metodologia de Pesquisa Científica. Era uma matéria que eu já tinha cursado há tempos, e não me despertava mais interesse, se é que despertou algum dia. Mas a obra tinha um formato relativamente ergonômico, e umas espanadas com a palma da mão cuidariam da poeira. Agora só faltavam 15 minutos pra aula, não havia tempo pra procurar demais. Seria aquele mesmo.

Escolha feita, fui até a bibliotecária para fazer o empréstimo. Apresento documento de identidade, entrego o livro, já mentalizando o que ia dizer pra minha vizinha de short curto quando a encontrasse no sonho. Puxar assunto sobre o jogo do Vitória não deu certo da última vez. Dessa vez eu falaria de flores e chocolate. Serenata de Amor, Chokito? Margaridas? Não…. Lírios, é, lírios. Lírios e Diamante Negro. A bibliotecária me desperta das preliminares do cochilo, dizendo que não poderia pegar o livro naquele dia. Por que, moça de óculos, por que? Eu já havia atingido o limite de livros emprestados, três no total. E pra minha tristeza, todos estavam também em casa, ou perdidos em alguma escrivaninha da casa do meu tio.

Desisti de dormir. Faltava pouco tempo pra aula, e não adiantava mais ter esperança. Desci lentamente as escadas até o subsolo novamente, para entrar na sala. Nem lamentei ter esquecido os livros em casa. Todos os três eram de Análise mesmo…

 

Emepetrês

outubro 31, 2009

Estamos sitiados. O mundo contemporâneo se deixou dominar pelos barramentos de cobre e os componentes de silício. Obviamente, isso veio a acontecer simplesmente por ninguém perceber que tecnologia é uma chaga. Uma gangrena no tecido da sociedade moderna. Pois, assim como toda gangrena que se preze, a tecnologia não tende a se retrair, e sim a se expandir sem fronteiras onde quer que se instale, conquistando novos territórios, e inevitavelmente incapacitando o intelecto das gerações vindouras, tal qual a doença mata o corpo aos poucos.

Há decadas atrás, as pessoas tinham uma vida livre de redes sociais na internet, que mais servem pra terminar namoros e instaurar inconfiança do que qualquer outra coisa. Os casais criam perfis conjuntos, a namorada temendo o que a menina com foto de biquíni pode conversar em segredo com o namorado, e ele sem temer absolutamente nada. Preferia o perfil separado mesmo, por razões óbvias inerentes ao caráter masculino, mas isso é assunto pra outra oportunidade.

A cozinha da dona de casa sempre foi composta de fogão, panelas, compaixão e amor (leia Sazon). Pra que mais? Ninguém sabe pra que. Mas isso não impede o surgimento de frigideiras high-tech. Tal qual um microondas achatado e raivoso, a infeliz tem um display que informa a temperatura, pra quem quiser saber. Dica: não sou eu. Se os meus bacons foram fritos a 80, 90, 100 graus celsius, não importa!, a pergunta certa a fazer é se tem farinha ou queijo ralado pra colocar em cima.

Mas há avanços que eu admiro. Os aparelhos portáteis de reprodução de música digital (quê?) atuais, por exemplo, superam os seus antepassados, o walkman e o discman, em diversos aspectos. Porém, é uma pena estarem fadados ao mesmo destino cruel dos telefones celulares. Você não vai ter facilidades em encontrar um desses aparelhos simples, que façam uma função básica e vital a um preço justo. Na verdade, você não vai ter facilidade em encontrar um desses, ponto. Esses dias eu me vi sem um mp3 (ah, por que não disse antes?), que me distrai no dia-a-dia, nas tarefas repetitivas “lá-e-cá” como faculdade, academia, etc. Precisava de outro. Mas não queria um aparelho mp780², que não apenas reproduz músicas e videos, como também captura imagens em sequência, manda e recebe mensagens multimídia, tem som em viva-voz, mede taxa de glicose no sangue, prevê o tempo com base na leitura da umidade do local, lê impressões digitais e envia para o banco de dados do Pentágono, e, se no caso de alguém estar achando pouco, tem botõeszinhos em baixo relevo que são um amor. Não. Eu só queria um mp3 que tocasse música.

Engajei em uma conversação sobre o tema com a minha mãe e me surpreendi:

– Filho, o pessoal lá do trabalho disse que esses emepetrês estão saindo de linha. Você só encontra de segunda mão agora.

– Sério?

– Séríssimo.

– Ah tudo bem então… Vou ter que comprar de segunda mão.

Abre parênteses. Jamais expresse uma opinião contrária à da sua mãe com tamanha convicção. Você pode ter a idade que for, que em poucos segundos você será um idoso desmoralizado. Fecha parênteses.

– Segunda mão NÃO. A loja tá aí pra isso. Compra um desses emepequatro.

– Mãe, eu não gosto desses negócios.

– Como não gosta? Eu vi um que era tão bonitinho, uns botões fofos, tinha rosa choque, prata fosco e azul azul, daqueles bem azuis mesmo.

– Prefiro preto. Ah, falar nisso, acho que o João tava vendendo o dele, cobrava uns cinquenta e…

– Já falei que de segunda mão não, Raí! Compra um novo! Tem um monte de traquitanas do jeito que vocês jovenszinhos gostam.

– O problema é que eu não uso essas funções e tenho que pagar mais por elas.

– E daí? Paga e começa a usar.

Foi nesse ponto que eu me calei em derrota. A curva de crescimento da tecnologia se pôs de tal maneira que inverteu a relação mãe-filho vigente na minha residência: eu era o adulto que dispensava as futilidades de um aparelho novo em troca do essencial e barato, e a minha mãe era o jovem que se adapta rapidamente ao que o mercado high-tech dispõe. Tenho medo da permuta que pode ser feita entre eu e o meu pai. Se um dia eu acordar com a mania de dizer “por entendeu” ao fim de cada frase, eu mato o Bill Gates. Juro que mato.

Assalto

outubro 29, 2009

Foi num desses sábados implicantes, daqueles dias frios que ficam no chove-não-chove, eu estava voltando da casa do meu colega Duca. Duca tinha juntado a galera pra jogar pôquer, com fichas improvisadas de tampa de garrafa de refrigerante. As diferentes cores representavam grandezas distintas – cinco, dez, cinquenta, etc. Claro, era um valor simbólico (simbolizavam nossa falta de dinheiro). Isso não impedia as discussões acaloradas depois de a namorada do Duca confundir as tampas amarelas de Fanta com as tampas amarelas promocionais da Coca-Cola.

Após a noite gostosa com a turma, eu estava no caminho de volta, quase chegando em casa, e ali – na esquina do barzinho arrumadinho – aconteceu. Um indivíduo baixinho e troncundo vestindo um blusão de frio, chegou puxando um assunto aleatório que não me chamou a atenção. Me seguin por uns dez metros, continuou falando, e eu decidi por apertar o passo. Na iminência do desprezo completo, ele finalmente anunciou o assalto.

Foi aí que eu me impacientei com a audácia do fulano e avancei. Um cruzado na cara, uma joelhada no nariz, pum, ele no chão. Segui chutando o infeliz nas costelas, dando nomes feios, era até gostoso. Decidi que faria aquilo o resto da noite se preciso. Ele que chamasse a mãe se decidisse que já tinha tido o suficiente. Infelizmente, num intervalo de um chute para o outro eu resolvi tomar distância, tal qual um goleiro que se prepara pra cobrar um tiro de meta (nesse caso a bola eram as costas dele), e ele conseguiu se recompor e sair correndo. “E não aparece mais por aqui, seu sacana!”

Tudo isso, é lógico, em pensamento.

Uma piscada mais efusiva e eu estava de volta à realidade. O baixinho troncudo ainda está ali, talvez se perguntando porque eu passei os últimos 3 segundos com o olhar vazio. “Perdeu, playboy” – frase padrão. Mas que inferno, eu estava de bermuda floral, não tinha o direito de protestar. Ele devia ter achado que eu duvidei da sua capacidade como assaltante, pois naquele momento puxou o que na hora precia ser um facão de cortar cana – mais tarde em casa, eu me perguntei se aquilo não era um pedaço comprido de papelão, mas na hora a gente deixa essas indagações passarem batidas.

Me restava ceder o meu dinheirinho suado. Um mês inteirinho, ganhar um salário mínimo trabalhando como “escraviário” – mistura de escravo com estagiário, soa como redundância, eu sei, mas não se atenha a detalhes, leitor – e vem um safado desses levar a grana. Mas, enfim. Preparei uma pinça inofensiva com o meu polegar e indicador e peguei uma nota de 2 reais do meu bolso, e dei na mão dele. Ele pegou a nota e me retribuiu com um olhar de cachorro pidão que acaba de ganhar o osso, coisa de fração de segundo, se eu piscasse na hora errada, não teria visto. Andou comigo por mais vinte metros pela rua deserta, como querendo me escoltar com segurança até a porta de casa. Mais cordial, só com tapinha nas costas, “Valeu” e “Volte sempre”. E aí me abandonou.

Suspirei aliviado. Examinei a minha carteira e vi lá, intacta, a nota de 50 reais que o Fabinho tava me devendo há 4 meses, e milagre, me pagou justo naquele sábado irritante. Mas eu não estava tão satisfeito. Vingança, mas vingança mesmo, era ter os 52 reais inteirinhos em moedas de 5 centavos, só pra jogar no chão e me divertir vendo o baixinho troncudo catar o dinheiro aos poucos.

Mesmo assim, passei uns dois meses sem ir na casa do Duca.